A VOZ DE JULMAR BARROS embarga ao falar do filho, Ari Celso Rocha de Lima Barros, policial militar que trabalha como segurança de Jair Bolsonaro e foi internado na quarta-feira no Hospital de Base do Distrito Federal, em estado grave, vítima de covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

Ari tem 39 anos e histórico de atleta. É exatamente o perfil de alguém que teria “no máximo um resfriadinho” se contraísse o novo coronavírus, segundo o presidente garantiu em seu último pronunciamento. Só que não é verdade. A doença pode causar quadros graves em pessoas jovens e saudáveis como Ari, um fã de Bolsonaro.

Perguntei a Julmar sobre as falas de Bolsonaro minimizando a doença e incentivando aos brasileiros a retomarem sua vida normal – o que ela achou absurdo. “Ele fala em voltar a trabalhar… Eu acho estranho, porque esse problema é muito sério. Estamos vendo os resultados. Acho que ele quis tranquilizar o pessoal, mas as pessoas têm que se resguardar, tomar o maior cuidado. Só sabe como é quem está passando ou tem um membro da família com esse problema”, desabafou.

A preocupação da mãe do segurança presidencial se justifica pelo estado do filho, vítima de algo um tanto mais grave que “uma gripezinha”. “Eu rezei, pedi tanto pela saúde dele”, ela me disse, emocionada. Ontem pela manhã, um militar colega do filho lhe telefonou para contar que Ari está consciente e passou a noite bem. “Quando ouvi isso, me ajoelhei no chão e agradeci a Deus”.

“Esse problema é muito sério”, diz Julmar Barros, a mãe, sobre o coronavírus.

Ari começou a sentir os sintomas da covid-19 poucos dias após o retorno da comitiva de Bolsonaro dos Estados Unidos, no início de março. Ele costuma acompanhar o presidente em eventos e viagens. Ele não viajou à Flórida, mas esteve próximo do círculo presidencial após o retorno do avião que trouxe ao Brasil 22 contaminados pelo coronavírus. E de alguns de seus passageiros.

“Eu falava pra ele: ‘a mãe tá rezando por você, que Deus abençoe que isso vai passar’”, contou Julmar. Mas não adiantou. Ari ficou duas semanas em isolamento domiciliar, com a esposa e os dois filhos, até que teve um pico de febre na quarta-feira e foi levado às pressas para o hospital.

Ari é capitão da polícia militar do Distrito Federal e atua desde fevereiro na Coordenação-Geral de Operações de Segurança Presidencial, vinculada ao Gabinete de Segurança Institucional, o GSI, comandado pelo ministro Augusto Heleno – também diagnosticado com covid-19. Heleno contrariou orientações do Ministério da Saúde e quarta-feira voltou a trabalhar no Palácio do Planalto, antes de cumprir os 14 dias de quarentena.

Segundo a mãe, Ari sempre praticou esportes e cuidou da saúde. Tem um perfil de atleta, como também diz ter o chefe. Se o presidente falasse a verdade sobre o novo coronavírus, Ari não estaria internado. Mas profissionais da área já desmentiram Bolsonaro e suas sandices sobre a covid-19. No noticiário, pipocam casos de atletas – de verdade – que adoeceram e tiveram quadros complicados da doença.

No mesmo pronunciamento, na noite de terça-feira, Bolsonaro ainda falou que apenas idosos fazem parte do grupo de risco da doença – o que também é descabido. Nos Estados Unidos, pesquisas mostram que 38% dos hospitalizados por covid-19 têm entre 20 e 54 anos. Ari está longe de se enquadrar no perfil de idoso ou pessoa sedentária, e ainda assim sofre as consequências da doença.

Julmar não sabe onde o filho pode ter se contaminado. Mas é certo que ele conviveu com gente infectada durante vários dias. Ele esteve em um voo com o secretário de Comunicação, Fábio Wajngarten, para Registro, em São Paulo. Wajngarten, também diagnosticado com covid-19, havia acabado de voltar dos Estados Unidos e apresentava sintomas. Além dele e de Heleno, outras 21 pessoas que estavam na comitiva aos EUA foram diagnosticadas com a doença. Elas costumam circular pelo Palácio do Planalto e em eventos com Bolsonaro, aos quais Ari também participava para fazer a guarda do presidente – que disse ter exames negativos, apesar de nunca mostrar os documentos.

Isolada em casa, em Ceilândia, a mais pobre das cidades satélites de Brasília, Julmar diz que passa o dia assistindo a missas pela televisão e pedindo pela vida das pessoas infectadas. “Agradeço pela vida do meu filho e peço que Deus não deixe mais ninguém passar por isso. É difícil, viu. É difícil”.

Hoje, ela recebeu a notícia de que o filho passou bem a segunda noite no hospital. Ainda assim, ela não foi autorizada a visitá-lo, pois tem 70 anos.

Por/Amanda Audi – The Intercept_Brasil

27/03/2020