Depois da queda logo depois de eleição, há mais de três semanas, divisa americana não fecha abaixo de R$ 3,80. Cenário internacional conturbado e a incerteza sobre votação das reformas no início do governo Bolsonaro desvalorizam o real.

A piora nas condições do cenário externo e do Brasil mantém o dólar em níveis elevados. Há mais de três semanas a moeda norte-americana não termina a cotação diária abaixo de R$ 3,80. Ontem, o câmbio voltou a superar a barreira psicológica dos R$ 3,90, terminando o dia no mesmo valor, após alta de 0,51%. O Ibovespa, por sua vez, que é o principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), caiu 0,44% após três altas consecutivas, e encerrou a semana com 87.449 pontos.

Os movimentos nos mercados mundiais de ontem foram pautados pela decepção em relação aos dados de varejo da China. No Brasil, particularmente, a desaceleração da atividade econômica do país asiático decorre na menor demanda por commodities e reduz a exportação, o que puxa a taxa de câmbio para cima.

O economista e sócio executivo da GO Associados, Eduardo Velho, lembrou que, após o término da eleição presidencial, o real se valorizou com R$ 3,70 e era possível comprar US$ 1, mas o patamar voltou a subir em função das incertezas causadas pela guerra comercial entre Estados Unidos e China. “Além disso, no ambiente doméstico, o adiamento de reformas e a aprovação de projetos de expansão de gastos e concessão de incentivos fiscais, ou seja, projetos associados à ‘pauta-bomba’ contribuem para a elevação da cotação do dólar para o intervalo de R$ 3,85 a R$ 3,95”, afirmou.


Segundo o analista, a elevação e a “persistência” da divisa americana em níveis mais altos tendem a aumentar as expectativas inflacionárias e, com isso, a possibilidade de mudança na trajetória da taxa Selic. “Por isso, a velocidade do timming de aprovação das reformas e dos ajustes necessários serão cruciais no primeiro semestre de 2019, para sustentar esse quadro de transmissão reduzida do dólar sobre os preços”, defendeu. Para dezembro de 2019, a GO Associados estimou que o câmbio ficará em R$ 3,75.


O economista-chefe da DMI Group, Daniel Xavier, afirmou, porém, que o andamento da agenda de reformas é “nebuloso”. “Logo após as eleições, sinalizaram que poderia ser votado parte da reforma da Previdência ainda este ano, o que seria um cenário positivo. Houve uma certa frustração”, disse. “As denúncias mais recentes de corrupção envolvendo a família do Bolsonaro também tornam o cenário mais incerto sobre o equilíbrio político, porque ele foi eleito numa plataforma de honestidade”, completou.


O próprio mercado não descarta a possibilidade da moeda chegar em R$ 4 se os eventos se agravarem. “Se seguir uma tendência de incertezas, nós podemos, no curto prazo, chegar, sim, a esse patamar”, afirmou Xavier. “Após o fim do ano, haverá uma discussão mais forte sobre as eleições para as presidências do Senado e da Câmara. Se houver uma tendência mais confusa e sugerindo nebulosidade, o mercado vai reagir negativamente.

Por outro lado, o inverso também pode ocorrer, com a melhoria dos cenários. Isso levaria à queda da moeda, até para R$ 3,50 ou R$ 3,60”, acrescentou.


Rafael Cardoso, economista da Daycoval Investimentos, acredita que, nos próximos anos, haverá um fortalecimento de moedas de países desenvolvidos em linha com a alta de juros nos Estados Unidos . “Nesse sentido, como vislumbramos continuidade de juros baixos no Brasil, o ajuste do menor diferencial deverá continuar a ocorrer com a depreciação do real frente ao dólar”, apontou.

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03/12    3,842

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Por/ Hamilton Ferrari

16/12/2018