Prisão do ex-presidente Michel Temer põe em evidência conflito entre força-tarefa, integrada por procuradores da República, delegados da Polícia Federal e auditores da Receita, e setores do Poder Judiciário e do Congresso.

A prisão do ex-presidente Michel Temer está sendo vista, nos bastidores do mundo político, como uma resposta de integrantes da Operação Lava-Jato ao Supremo Tribunal Federal (STF), que mudou o entendimento sobre a competência para o julgamento de crimes ligados a caixa dois eleitoral, e ao Legislativo, que resistiria ao pacote anticrime do ministro da Justiça, Sérgio Moro. Moreira Franco, que foi preso na mesma ação, é sogro do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). As investidas policiais ocorreram em meio a uma crise envolvendo o Ministério Público Federal (MPF), o Poder Judiciário e o Congresso.
A detenção de um importante líder político, nome forte do MDB, e ex-chefe do Executivo mexe com a vida política nacional. Os impactos alcançam de aliados do governo a integrantes da oposição e parlamentares independentes, todos atentos aos próximos passos das investigações. Tudo ocorre em um momento em que procuradores da Lava-Jato afirmam que a operação está sendo atacada a ponto de ter seu futuro colocado em risco.
O cientista político Sérgio Praça, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) afirma que diversos fatores ocorridos nos últimos meses enfraqueceram o apoio popular à operação. “Acho que teve duas coisas recentes que fizeram a Lava-Jato perder apoio: Moro virar ministro do presidente Jair Bolsonaro e a situação que envolve a criação de um fundo para gerir recursos que seriam repassados pela Petrobras aos Estados Unidos”, disse.
O especialista critica os discursos de integrantes da Lava-Jato. “Tem muita gente que apoia a operação e não gosta do presidente Bolsonaro, o que passa uma mensagem ruim. Aquele discurso de ‘somos os únicos honestos do mundo’ também está enfraquecido”, completou.
No MPF e no Poder Judiciário, ao menos na primeira e na segunda instâncias, a operação ainda encontra forte apoio. O procurador da República Hélio Telho ressalta o papel essencial da força-tarefa da Lava-Jato, composta por integrantes do Ministério Público, policiais federais e auditores da Receita, nas ações que resultaram em diversas prisões de políticos.
Para Telho, a ida de Sergio Moro para o Executivo, como ministro da Justiça, em nada enfraquece a operação, uma vez que ele só cuidava do processo legal. “A Lava-Jato não é e nunca foi o Moro. Ele nunca integrou a força-tarefa, que é a essência da operação. O Moro tinha apenas competência legal para julgar a maior parte de ações penais e de autorizar medidas requeridas pela equipe de investigação”, destacou.
A prisão do ex-presidente Michel Temer não ajuda a reforçar a imagem da Lava-Jato, mas era algo esperado, avalia Telho. Segundo ele, era “natural” que Temer fosse preso após sair da cena política. “Não sei se a prisão vai se manter, mas não é o único processo a que ele está sujeito. Há outros casos contra ele, que também podem resultar em prisão”, acrescenta.

“Tem muita gente que apoia a operação e não gosta do presidente Bolsonaro. Aquele discurso de ‘somos os únicos honestos do mundo’ está enfraquecido”

 

Por/ Renato Souza e  Gabriela Vinhal

23/03/2019